A ampulheta deixava Maristene extasiada. Sua mãe chamava para o café, para o almoço, para as lições da escola e até para um sorvete daqueles que ela adorava, mas a menina só levantava quando toda a areia houvesse caído para o outro lado.
Ninguém entendia aquela mania. Mas, para ela era como um ritual. Uma reza, ou algo assim. Estranho comportamento para uma criança de apenas oito anos. E, olha, que já fazia quase um ano que Maristene repetia o ato. Que está fazendo? Anda logo. Deste jeito vai perder a hora da escola, reclamava a mãe.
Quando perguntavam o que era aquele objeto, ela sorria e não falava nada. Ah, deixa pra lá, isso é coisa de criança, dizia a tia. Afinal, ela não tem irmãos. Arrumou uma distração. É, mas isso já está passando dos limites. É sempre. Só quando está dormindo é que a dita cuja fica ali, parada, no criado mudo. Acordou, abriu os olhos, é a primeira coisa que pega e não larga mais, o dia inteiro.
Até nas férias, quando foi para a casa da avó, levou a ampulheta e ficava lá, esperando a areia cair, para depois atender a qualquer chamado. O pior de tudo é que veio de lá muito triste e só chorava. Mas o que aconteceu? Ninguém ficou sabendo. A avó garantiu que por lá correu tudo igualzinho, normal, sem nenhum problema. Esta menina é muito estranha.
A tia, muito amiga de Maristene, resolveu conversar com ela. Com todo o jeitinho entrou no seu quarto enquanto a menina lia um livro e olhava a ampulheta.Os olhos lá e cá. Minha filhinha, deste jeito você consegue entender a história que está lendo? Fica virando e revirando este vidrinho aí, cheio de areia. Não é vidrinho, tia. É o tempo. Ele está preso aqui dentro e eu não posso deixar que escape. Todo mundo fala que o tempo voa, que a vida passa depressa demais. Então, eu cuido muito para que ele fique sempre aqui, de um lado para outro, a fim de não fugir e levar as pessoas que eu amo pra longe de mim. Lá na vovó, fomos a um passeio e eu esqueci o tempo em casa. Que agonia! Meu peito parecia que ia explodir. Quando foi ali pelo meio da tarde, na volta, o carro quase saiu da estrada. A vovó passou mal de tão nervosa. O médico teve que atendê-la. Corri para o quarto e sacudi varias vezes o tempo, enquanto falava com ele, pedindo para que não fizesse isto comigo. Não levasse minha avó para longe de mim. Não sei se consegui alguma coisa, sabe, tia? Desde aquele dia, ela ficou diferente, parecendo tão cansada. Por isso eu vim embora tão triste. Agora, então, não descuido mais, de jeito nenhum.
Minha querida. Não é assim que as coisas acontecem. Esta areia aí dentro é para marcar o tempo. Ela leva um minuto para descer todinha. Quando você vira, lá se vai mais um minuto. O tempo não pára. Veja no relógio. Mesmo que você não vire o vidrinho, os minutos vão seguindo adiante, formando as horas, passando os dias, os meses e os anos. É igual para todo mundo.
Maristene virou de costas para a tia e não deu mais uma palavra. Seguiu na leitura e na virada da ampulheta. Como pode uma pessoa grande como a tia Vera, que sabe das coisas, dizer uma bobagem destas? Imagina! Se eu largar o tempo ele vai correr, correr e, logo, logo, vou ficar sozinha. A vovó irá embora. Mamãe e papai, também. Até mesmo a tia. Não vê que estou cuidando pra ela também ficar aqui, perto de nós?
Os dias foram passando, assim como os meses e já era, de novo, Natal. Maristene tinha o seu pedido de presente prontinho. Saiu correndo rumo ao portão para entregar sua carta ao carteiro. Ele se encarregaria de levá-la ao Papai-Noel, com certeza. Como esperou a areia passar todinha para o outro lado e só então sair à rua, o homem já estava bem longe, na calçada oposta. Na pressa, não olhou com cuidado, e atravessou. Uma freada brusca e um grito. Depois, foi só silêncio. A mãe e a vizinhança acudiram, desesperadas. Maristene estava caída no asfalto. O motorista não teve como evitar o acidente pois a menina surgiu de repente. Nada mais foi possível fazer. Quando a colocaram na ambulância, tinha numa das mãos a pequena ampulheta, em cacos. A areia já se perdera quase toda. O tempo fugiu das mãozinhas da menina que tanto cuidara para que isso não acontecesse. Na outra mão, a carta para o Papai-Noel. Pedia uma ampulheta bem grande, que demorasse muito mais para que a areia passasse por completo de um lado para outro. Ela tivera essa idéia imaginando que, assim, teria muito mais tempo e as pessoas que amava jamais iriam embora.
A partir da comunidade do Orkut Ex-Alunos e Admiradores do Colégio São Paulo, criada pela professora Lisete de Lima, criou-se um reencontro prazeroso entre pessoas que fizeram a história da extinta escola do bairro Niterói. A última reunião, que ocorreu no mês passado, reuniu várias gerações.
Escrever sobre o assunto me emociona, por também ter feito parte dessa história. Seja como aluno ou presidente do Grêmio Estudantil, em 1987. A ex-aluna Tânia Melo é uma das coordenadoras desses encontros. Tive um agradável bate-papo com ela sobre a nossa saudosa escola:
Integrantes da comissão organizadora do encontro do Colégio São Paulo
‘Um dia, para uns em 1951, para outros, em 1955, 1974, 1995, fomos levados pelas nossas mães para o primeiro dia de aula, no Colégio São Paulo, de Niterói. Colégio das irmãs, como se costumava dizer. Era hora de mudar de vida, responsabilidades, temas de casa, obrigações. Logo que a sineta tocava, a cena era clássica. Todos se dirigiam ao saguão, onde duas religiosas se apresentavam: uma de rosto largo e rosado, a irmã Irineia. Outra, franzina, de rosto severo, a irmã Neonila. Elas eram as responsáveis por dar as boas-vindas. Além das aulas com professores queridos de todos, havia horários especiais. Na hora da entrada era quando largávamos a pasta e íamos brincar de sapata, pegador, cinco-marias, esconde-esconde e caçador até o soar da sirene. No recreio, comprávamos uma garrafa de guaraná e um sonho no bar. E, na saída: hora de liberdade e correria. Íamos para casa chutando pedrinhas, pisando em poças de água que, naquele tempo, não eram poucas.’
Almoço em março reuniu diferentes gerações que passarampela instituição
Desta forma, Tânia descreve um pouco do que era o amado Colégio São Paulo. Muitas vezes escrevi sobre a instituição e os professores, também. Sobretudo sobre Leonel Budzyn, meu mestre de português. Para quem não conhece a comunidade, vale a pena conferir. Vocês verão várias fotos de épocas diferentes e também poderão contribuir enviando imagens.
Texto e fotos enviados pelo blogueiro Mário Amaral Teixeira
Assim eu quereria meu último poema Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
No dia 13 de outubro, há 40 anos, morria Bandeira.
Os Plátanos homenageiam a este poeta que marcou, de forma tão especial, a nossa literatura.
Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: aqui... além... Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente... Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente!... Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente! Há uma primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar...
Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades.
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro, do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser...
Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando n o futuro.
Sinto saudades do futuro, que se idealizado, provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei de vislumbre.
Sinto saudades de coisas que tive e de outras que não tive mas quis muito ter! Sinto saudades de coisas que nem sei se existiram.
Sinto saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava fielmente como só os cães são capazes de fazer.
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar.
Sinto saudades das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade...
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que... não sei onde ... para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi.
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades em japonês, em russo, em italiano, em inglês ... mas que minha saudade, por eu ter nascido no Brasil, só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria espontaneamente quando estamos desesperados... para contar dinheiro... fazer amor ...declarar sentimentos fortes ... seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples “I miss you” ou seja lá como possamos traduzir saudade em outra língua, nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima corretamente a imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas. E é por isso que eu tenho mais saudades...
Porque encontrei uma palavra para usar todas as vezes em que sinto este aperto no peito, meio nostálgico, meio gostoso, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis!
De que amamos muito o que tivemos e lamentamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência...